Page 37 - Política Democrática
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34  ENSAIO - JOSÉ CARLOS MONTEIRO  REVISTA POLÍTICA DEMOCRÁTICA  REVISTA POLÍTICA DEMOCRÁTICA  JOSÉ CARLOS MONTEIRO - ENSAIO  35



 para traumas ocultados e dissimulados  é complexado e vingativo. Não parece  simbólicas – uma figura que, não obstan-  ram  deliberadamente  a intervenção de  transcorrida há um século e cujo prota-  [1]A  biopic, segundo o historiador do cinema Robert
 em suas atitudes. Essa “explicação” é  um serial-killernem um fanático. Como o  te, é também conceitual, pois encarna a   grandes dirigentes da luta revolucionária.  gonista foi Trótski, “o profeta armado”.   Rosenstone, citando Roland Barthes, é “uma ficção
                                                                                que não ousa dizer seu nome... (ela pega) vidas reais
 proposta em flashbacksem que o prota-  seriado é elusivo em relação a Mercader,  vontade de poder, como uma espécie de   Lênin é uma caricatura inacreditável, sem  Por uma perversão, essa  biopicacabou   de pessoas e as transforma em esferas do mito.”  Ver
 gonista revê seus fantasmas existenciais:  não ficamos sabendo que ele era filho  super-homem negativo.    vibração. Stálin, o arquirrival de Trótski, é  por assumir a feição de um confronto   Rosenstone,  “In Praise of the Biopic”. In: Richard
                                                                                Francaviglia e Jerry Rodnitzky (ed.),  Lights, Camera,
 o pai, a mulher, o marinheiro assecla e  de uma comunista espanhola que com-  No plano artístico, inegavelmente   visualizado como uma sombra, um inimi-  entre duas mentes alucinadas, Trótski e   History. Portraying the Past in Film.Arlington: Texas A&M
 até o próprio Freud.  Nesse momento,  batera na Guerra e que seria refém de  os realizadores obtiveram síntese forte,   go mortal surgido de um incidente trivial  Mercader. Tudo o mais foi praticamente   University Press, 2007.  George F. Custen, estudioso
                                                                                do assunto, sentencia sarcasticamente: “A biografia
 a narrativa assume cisão freudiana, se  agentes stalinistas.   imaginária e conceitual. As imagens e   (cf. a cena em que Trótski ignora a mão  removido da cena histórica – como fazia   hollywoodiana [biopic] está para a História assim como
 fragmenta em polaridades esquizofrêni-  os sons [matéria, forma, cor, cenários,   estendida por Stálin para cumprimentá-  Stalin quando de seu regime de terror. O   o Caesar´s Palace [notório hotel cassino de Las Vegas]
                                                                                está para a história arquitetônica: uma enorme, atraente
 cas: erose thanatos.  Estética da ambivalência  figurinos] são determinados pela equa-  -lo). Parece anedota: admirador rejeitado  espectador é obrigado então a vivenciar   distorção, que, depois de certo tempo, nos convence de
 O seriado reproduz pensamentos,   ção ideológico-política – a ideologia   vira adversário implacável.    o desfecho da narrativa na mais pura tra-  seu próprio tipo de autenticidade.”
 imagens e sentimentos de Tróstki em   Em vista de seu propósito de evo-  assumida pela produção. É, sem dúvida,   Sem qualquer relevo,  transitam em  dição idealista. Ou, como escreveu Mer-  [2]Vladislav Surkov.  “Entenda a moderna governança
 correntes contraditórias em que sua“-  car uma página da história soviética, a  a política que comanda a estética. Sem   alguns episódios personalidades marcan-  leau-Ponty, em As aventuras da dialética:   russa.  Putin e seu estado duradouro”.  14/2/2019.
                                                                                Original russo traduzido para o inglês por Dmitry Orlov
 consciência” parece desafiar sua versão  minissérie necessariamente exibe algu-  dualismo, a realização artística/cinema-  tes da vida política e cultural russa dos  “um filme não se pensa, ele se percebe”.  e veiculado no Blog Vineyard of the Saker. Acessado em
 da verdade e do espírito da revolução.  ma expressividade no horizonte espeta-  tográfica/televisiva valoriza a linha polí-  primórdios do século XX até a eclosão   E  o  que percebemos  após  os oito   14/2/2019.
 Por sua vez, Ramon Mercader passa por  cular. Em termos materiais, há evidente  tica. O que, em substância, implicaria   da Revolução: o escritor Máximo Górki,  episódios magnificamente fotografados   [3]A biografia de Dmitri Volkogonov, general do
 semelhante transfiguração. Embora não  capricho de produção na reconstituição  ironicamente aquilo que queria  Trótski   o teórico marxista Gheorgi Plekhanov, o  deTrótski? Um bem arquitetado espe-  exército  soviético, chefe do departamento de guerra
                                                                                psicológica e diretor do Instituto Histórico Militar, parece
 seja tomado por alucinações fantas-  dos ambientes, nos figurinos, nos ade-  em sua postulação da missão artística:   financista socialista Alexander Parvus, a  táculo de  trompe l´oeil.  Este modelo   “insuspeita”,  já que, como ex-stalinista,  ele foi dos
 [12]
 magóricas, como  Trótski, o misterioso  reços. Na configuração narrativa, a  “Uma política marxista e uma arte bur-  mulher de Lênin, Nadezhda Krupskaya, o  de confecção fílmica  explora a ilusão   primeiros a consultar os documentos secretos, escreveu
                                                                                uma das mais bem documentadas biografias sobre
 Frank Jacson (Ramon Mercader), quase  forte presença do protagonista é valori-  guesa”.  pintor Diego Rivera, o líder do Governo  e acredita que a verdade sobre  Trót-  Stalin (Stalin: Triunfo e Tragédia), Lênin (Lênin: uma nova
 um encarnado alter ego do líder revo-  zada pela intensa “encarnação” do ator   Para compreensão do grande público   Provisório Alexander Kerensky etc. Larissa  ski transparecerá na representação ou   biografia) e Trotsky (Trotsky: O Eterno Revolucionário).
 lucionário, não dissimula seus aspectos  Konstantin Khabensky. O personagem  (russo ou estrangeiro), a narrativa é essen-  Reisser ganha destaque apenas pela sua  visualização  do  homem,  do  líder  e  do   [4]Cf. Marcio Cury, “Recuperando a verdade sobre o
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 patológicos. O assassino é um comple-  está em cena o tempo todo, envolven-  cialmente linear, consoante a concepção   nudez deslumbrante, no primeiro episó-  momento histórico por meio do conhe-  seriado ´Trotsky`exibido pela Netflix”.   21/12/2018.
                                                                                Acesssado na Internet  em 15/2/2019.
 xado que queria entrar na História por  te (mas não empático). Sua   frieza e  clássica (americana). Para condensar a   dio. Não obstante, não há referência ao  cimento sensível (as emoções dele e de   [5]Tsekalo, em entrevista à Agence France Presse, em
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 reflexo . O seriado contrapõe dois deli-  desenvoltura, sua habilidade ao inventar  trajetória de Trótksi e da revolução, os   exílio de  Trótski. Antes de ser acolhido  seu entorno) e não do conhecimento   23/10/2017: “Cem anos após revolução, Trotsky vira
 rantes: de um lado, um Trótski isolado  e tramar as ações de modo ousado, sua  diretores recorrem a flashbacks, e usam e   em 1936 pelo México, e ser protegido  racional. O ilusionismo se sobrepõe à   ‘herói’ de série de TV russa. Líder bolchevique que foi
                                                                                morto a mando de Stalin aparece com ‘papel sangrento’”.
 e enfraquecido, usado como “atração  capacidade de assumir identidades pro-  abusam da elipse, de cortes no tempo e   por Rivera e Frida Kahlo, ele passou pelo  análise. Basta satisfazer o observador
 turística”  pelo governo  mexicano,  um  visórias e máscaras múltiplas criam uma  no espaço. Mas essa profusão de elipses   Cazaquistão e a Turquia, e viajou pela  com lances de ação, violência e sexo.   [6]Cf. Dwight Macdonald, in Politics Past. Essays in Political
                                                                                Criticism. Nova York: Viking Press, 1970. P. 314
 megalômano que quer deixar um rela-  tensão que transforma o seriado num  quase inviabiliza a reflexão. Na verdade,   Europa. O seriado só assinala de passa-  Aliás, raros filmes  russos antigos ou   [7]Max Weber. “Dominação carismática”. In: Sociologia.
 to  sobre  sua  filosofia  da  revolução;  de  espetáculo de sensações. A minissérie  o seriado dispensa reflexão: tudo é tão   gem o momento em que ele parte para  recentes expõem com tanta franque-  Organizador: Gabriel Cohn. 5ª ed.  São Paulo: Ática,
 outro, Jacson-Mercader, uma persona-  desencadeia emoções (em sua maioria  explícito, sem nuance ou sutileza que se   o exílio com a mulher. Nem vemos qual-  za as relações sexuais. Como diz Frida   1991. Página 128.
 lidade igualmente obsessiva, um tipo  puramente melodramáticas) a partir de  torna inútil exigir alguma complexidade.   quer menção à ressonância intelectual e  Kahlo  para  Ramon  Mercader:  “Trotski   [8]In: Théorie et Politique. Paris: Éditions Sociales, 1967.
 perturbado que executa Trótski porque  uma figura carregada de determinações  Ao mesmo tempo, os realizadores igno-  política dos escritos do líder revolucioná-  transou com todo mundo. Ter sexo com   [9]Sigmund Freud, “Thomas Woodrow Wilson: um
        rio no contexto internacional. Sabemos,  ele é como ingerir uma droga que vai   estudo psicológico”, citado em Marcos Guiter, “Guerra e
                                                                                liderança”. In: Guerra e morte. Rio de Janeiro: Imago, 1988.
 Foto: Netflix/Reprodução  participou de um contrajulgamento de  pletar a contrafacção, os realizadores   materialismo histórico. c/1972.
        por exemplo, que o filósofo John Dewey  diretamente ao cérebro.” Para com-
                                                                                [10]Martha Harnecker.  Os conceitos elementais do
        Trótski,  condenado  por  “traição”  nos  mostram Trótski, depois de morto, com
                                                                                [11]No filme O assassinato de Trótski(1972), de Joseph
                                            uma imagem que remete ao começo
        famigerados Processos de Moscou.
                                                                                Losey,  quando  o  chefe  da  polícia  mexicana  indaga
                                                                                a Mercader “Quem é você?”, em um sussurro ele
                                            do seriado: o  Profeta vagando aleato-
          Como assinalamos, por opção estéti-
        co-ideológica, a série não visa descrever  riamente em algum lugar da estepe rus-
                                                                                Nuovo, n. 217, maio-junho de 1972. Ano XXI, p. 218.
        em seus múltiplos aspectos os “dez dias  sa nevada, vestido com roupa clara, de   responde: “Eu matei Trótski”. Ver Ugo Finetti, in Cinema
                                                                                [12]Embora algo “desconhecido” para um público mais
        que abalaram o mundo” (cf. John Reed).  óculos e “armado” com seu bastão. O   jovem, o mundo reconstituído em Trótskinão lhe causa
        Nem mesmo Sergei Eisenstein teve essa  que o impulsionava nessa deambulação   estranheza, graças a uma estratégia de atualização da
                                                                                representação que comporta inclusive ousadas cenas
        pretensão ao realizar em 1927 o monu-  no Além? Provavelmente, como sugere   eróticas  –  algumas  protagonizadas  pela  icônica  artista
                                                               [14]
        mental  Outubro,encomendado  para  Raquel Barbieri Videal, , ele aguarda-  mexicana Frida Kahlo. A propósito, ver Pascal Kané,
                                                                                “L´effet d´étrangeté”.  Cahiers du Cinéma, n. 254-255,
        marcar os dez anos da revolução (e do  va “o trem blindado do seu passado”,   dezembro de 1974-janeiro de 1975.
        qual Stalin mandou expurgar Trótski). O  que metaforicamente o atinge de fren-  [13]Prestigiado no novo cinema da Rússia putinista,
        seriado, sem ser propriamente comemo-  te, como que sentenciando que foi sua   Khabensky encarnou em Almirante(2008), o comandante-
        rativo, e abrindo mão de “objetividade”,  ambição que o matou. No fecho do   chefe do Exército Branco, Aleksandr Koltchak, durante a
                                                                                Guerra Civil Russa. Em 2018, o ator dirigiu Sobibor, sobre
        evoca temas tabus da revolução de 1917  seriado, em tom místico-moralizante,   o  campo  de  concentração  homônimo.  Ver  Alexandra
        numa perspectiva contemporânea (e em  aparece um provérbio bíblico de Salo-  Gúzeva. “4 reasons to watch ‘Trotsky’ on Netflix”, in Russia
                                                                                Beyond. 21 de dezembro de 2018.
        sintonia com o contexto econômico-cul-  mão, que diz “O caminho dos perversos
        tural).  É a ideologia do presente que se  é como a escuridão, não sabem contra   [14]Ver  Raquel Barbieri Vidal. “Trotsky na Netflix: uma
                                                                                série  infame  que  deturpa  a  história  do  dirigente  da
 O Trótski da minissérie não reflete a exasperação das lutas pelo poder nem o terror da revolução, só a obsessiva intenção de “desconstruir” o líder.
        impõe na reconstituição de uma ação  o que tropeçam.” (Prov. IV, 14-19)  Revolução Russa”. 22 de janeiro de 2019.
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