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Cora Rónai: Não se amplia a voz dos imbecis

Gente burra e má sempre existiu, mas a sua voz jamais ganhou a dimensão que ganha hoje nas redes sociais

No dia em que faleceu o netinho do ex-presidente Lula, as minhas redes sociais foram tomadas pela comoção — e pela indignação contra pessoas que estariam tripudiando da morte da criança. Vi muitas manifestações de revolta mas, nas minhas redes, não cheguei a ver, naquele momento e em sua forma primária, nenhum post que não fosse de pesar ou de solidariedade.

Tentei encontrar as causas da indignação na sua raiz. Encontrei apenas dois posts com referências diretas ao menino Arthur, escritos por duas usuárias desconhecidas do Facebook, compartilhados milhões de vezes, dando às suas autoras um alcance (e uma notoriedade) que jamais teriam como conseguir nas asas da sua própria maldade; muitos posts questionando a saída de Lula da prisão e discutindo minúcias legais, como se deixar um avô ir ao enterro de um neto fosse um privilégio; e comentários genéricos contra o ex-presidente em publicações dos portais e da imprensa em geral, chocantes porque, no momento de horror indizível da morte de uma criança, tudo o que se espera é solidariedade à família, qualquer que seja essa família.

Em todos os casos, a desumanidade foi amplificada pelos bons sentimentos de quem reagiu a ela: o ódio pegou carona no amor e foi longe. As vastas ondas de solidariedade não repercutiram, é claro, porque reações normais tendem mesmo a não repercutir.

Gente burra e má sempre existiu, mas a sua voz jamais ganhou a dimensão que ganha hoje nas redes sociais.

Millôr costumava dizer que não se amplia a voz dos imbecis -- e ele nem chegou a pegar as redes sociais no seu auge. Na internet a voz dos imbecis repercute ad infinitum, e nós corremos o risco de achar que eles representam a totalidade da população fora dos nossos círculos de amizade: os "outros".

Está aí a receita perfeita para disseminar ódio em vasta escala a partir de sementes que não deveriam em circunstância alguma ser regadas.

Imbecis representam-se apenas a si mesmos, e nós faríamos um bem a todo mundo se pensássemos duas vezes antes de compartilhar as imbecilidades que expressam -- seja em relação à política, seja em relação ao que for.

Leio frequentemente comentários de pessoas desiludidas com a humanidade, achando que nunca fomos tão brutos e maus. Tendo lido um pouco de História, não tenho tanta certeza disso, mas tenho certeza absoluta de que a palavra dos brutos e maus nunca foi tão propagada pelos justos e bons.

Em tempo: o tuite de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e deputado federal, que em 217 caracteres conseguiu expor a abissal falta de empatia, de educação e de humanidade da sua família, é um caso à parte. Saímos aí do maluco da esquina, do troll, do militante hidrófobo que não se deve levar em consideração, e entramos na esfera do governo e da representatividade política.

Besteiras patológicas ditas por políticos devem ser apontadas e publicamente execradas sempre, para que fique claro à população como estão agindo os seus representantes, e o que lhes passa pela cabeça.


Cora Rónai: A lama, o ódio, a responsabilidade

Um país que faz a gente se confrontar com um sentimento tão violento precisa parar e repensar, a sério, as suas prioridades

Como é morrer soterrada na lama? Eu já levei muitos caldos na praia, já tive o lombo arranhado pela areia do fundo, perdi noção se subia ou descia, engoli tanta água salgada que a garganta e o nariz ficaram ardendo dias — não cheguei a me afogar mas quase, e não preciso fazer um grande esforço de imaginação para entender como é morrer no mar.

Qualquer um que já caiu numa piscina ou que teve banheira em casa quando era criança e tentou ver quanto tempo ficava sem respirar tem pelo menos uma vaga ideia de como é morrer afogado na água.

Mas como é morrer afogada na lama?

Como é ser arrastada por aquela massa? Como é sentir o impacto, perder o pé, engolir aquela porcaria toda? Como é tentar lutar por ar naquela escuridão gosmenta?

Tento imaginar mas desisto logo, abalada pelo horror. Subo para a superfície do pensamento, respiro e tenho vontade de gritar, de sair para a rua quebrando tudo, de me esconder debaixo da cama e de comprar a primeira passagem para qualquer outro canto, tudo junto, ao mesmo tempo.

Penso em Brumadinho, nas vítimas de Brumadinho, em toda a natureza perdida de Brumadinho, e sinto um ódio tão grande e tão poderoso quanto a lama.

Um país que faz a gente se confrontar com um sentimento tão violento precisa parar e repensar, a sério, as suas prioridades; uma empresa que traz esse sentimento à tona precisa parar, ponto.

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A diretoria da Vale tinha que ser responsabilizada pelos crimes que cometeu. Desde Mariana, desde Bento Rodrigues, desde Paracatu de Baixo. Desde as vidas que foram perdidas ali, desde o Rio Doce assassinado. Enquanto a punição for apenas financeira, nada vai mudar — afinal, quem paga, quando paga, é “a empresa”, essa vaga coisa montada com tantos vícios.

Até agora, as multas do Ibama aplicadas à Samarco ainda não foram pagas; até agora, os atingidos de Mariana aguardam reparação.

Diretores vão para a televisão, manifestam surpresa, pedem desculpas, choram lágrimas de crocodilo... e continuam intocáveis e intocados nas suas vidas bem acolchoadas, homens virtuosos que, afinal, não fizeram nada.

Quando não vão eles, vão os seus advogados, para negar qualquer responsabilidade.

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O governo falhou na fiscalização, falhou na legislação, falhou em tudo o que precisava ter feito mas não fez, tudo o que precisava ter feito mas não faz, desde que existe governo neste país. A canalha é federal, estadual e municipal. Se isso não bastasse, ainda precisamos aguentar o cinismo de autoridades e ex-autoridades que tentam usar politicamente a tragédia pela qual são corresponsáveis.

Mas é fácil apontar o dedo para as falhas do governo, e dizer que a Vale, afinal, agia dentro da lei. A Vale fez as leis; a Vale comprou as leis.

Empresas, como pessoas, precisam ter valores. Uma pessoa decente não é decente apenas por medo de ir para a cadeia; uma empresa decente não pode ser decente apenas no limite da lei — que ela molda e retorce de acordo com as suas conveniências.


Cora Rónai: As agruras do senhor Messias

Basta olhar para o seu perpétuo ar contrafeito para perceber que não era bem isso que ele tinha em mente quando se lançou a essa aventura

O governo ainda não tem um mês e já coleciona histórias mal contadas suficientes para dez legislaturas na Finlândia. A internet não tem sossego — mal absorve um escândalo e lá vem outro. Tenho pena do Queiroz, que anda tão doente: esse tipo de situação não faz bem à saúde. Chego a temer pela vida do rapaz.

Tenho pena também do senhor Messias, que deu um passo maior do que a perna, e que agora se mostra tão pouco à vontade nas suas novas funções. Tudo o que ele queria era fazer churrasco à beira da piscina e passar o fim de semana de sunga; agora é obrigado a trabalhar, a viajar para lugares onde jamais pensaria em pôr os pés se pudesse escolher por si mesmo e a fugir da imprensa, que insiste em fazer perguntas.

O senhor Messias não tem mais sossego, e basta olhar para o seu perpétuo ar contrafeito para perceber que não era bem isso que ele tinha em mente quando se lançou a essa aventura.

Aquelas fotos do senhor Messias comendo no bandejão do supermercado, por exemplo. Todas as sumidades reunidas ali ao lado, aproveitando os parcos e preciosos momentos em que se encontram para trocar ideias e fazer negócios, almoçando com um olho na comida e outro no futuro, e o senhor Messias sozinho, com os seguranças, tentando vender como humildade o seu tédio e falta de entrosamento.

Nem Temer se viu tão sozinho no mundo.

Em 2009, em Copenhague, Dilma, que ainda não era presidenta e, a bem dizer, não era ninguém na fila do pão, ficou mortalmente ofendida com a ideia de comer no bandejão da Conferência do Clima, e despachou uma de suas assessoras para a fila — onde Angela Merkel conversava, descontraidamente, com Nicolas Sarkozy.

No mundo dos tubarões, até bandejão tem seu modo de usar.

Luís Inácio, aquele, tinha muitos defeitos, mas tinha a manha. Não cometeria um erro bobo desses. Chegava no estrangeiro e, onde quer que fosse, era logo rodeado por gente ansiosa em tirar uma casquinha da sua imbatível popularidade. A elite tem má consciência, e Luís Inácio sabia disso: ele, homem do povo, era um passaporte político e emocional para os poderosos.

“O cara.”
O senhor Messias não. Não só não sabe como o mundo gira, como está pessimamente assessorado. Está criando um legado de imagens risíveis e constrangedoras, confiando num populismo pão com Leite Moça que pode ter funcionado na campanha, mas que não ajuda em nada a sua imagem como presidente.

Sim, eu sei que o Luís Inácio está preso; Cid Gomes já me disse. E sim, eu sei que ainda é preciso que o senhor Messias se afaste muito mais da senda tortuosa da virtude para sequer começar a emparelhar com os “malfeitos” do PT.

Afinal, Luís Inácio e os seus tiveram 13 anos de governo para azeitar a sua formidável máquina de pilhagem; o senhor Messias mal começou.

Tudo a seu tempo.

Enquanto isso, fica um conselho para o senhor Messias: se no próximo encontro de potentados lhe faltar companhia novamente, alegue uma indisposição e peça comida no quarto. Não é tão barato quanto o bandejão do supermercado, mas não é nada diante da viagem no Aerolula.


Cora Rónai: Presidentes não bloqueiam

A conta usada por um presidente para comunicar atos de Estado não é igual a uma conta pessoal para manter contato com os colegas

E aqui estamos, enfim, do lado de cá de um ano que, do lado de lá, parecia totalmente improvável: o ano de sentir saudades, se não do Temer, pelo menos da sua discrição e da sua ausência nas redes sociais. Presidentes tuiteiros são uma novidade relativamente recente, e o exemplo mais famoso, nos Estados Unidos, é um desastre em 280 caracteres (saudades também do antigo limite de 140).

Ainda é cedo para dizer como se sairá o presidente Bolsonaro nesse quesito, mas se o Bolsonaro-candidato e o Bolsonaro-presidente-eleito são uma pista, teremos muita polêmica e muitos malentendidos pela frente, com o risco concreto de desgastes gratuitos. Presidentes não têm assessoria de comunicação apenas para responder a eventuais perguntas da imprensa ou para organizar coletivas, mas também para conter confusões onde elas podem, e devem, ser evitadas.

O jornal “The New York Times” mantém uma lista de pessoas, lugares, coisas e instituições que o presidente Trump já insultou pelo Twitter, de al-Assad, o ditador da Síria (“Um animal”) a Zuckerman, proprietário do “The New York City Daily News” (“Um pateta” ). Ela foi atualizada no último dia 28 e conta com 551 nomes, alguns — como o próprio “The New York Times” — mencionados incontáveis vezes seguidas. É leitura estarrecedora.

Espero sinceramente que acompanhar o Twitter do presidente Bolsonaro seja aventura menos trepidante. E espero que ele, seus filhos e seus assessores entendam que a conta usada por um presidente para comunicar atos de Estado não é a mesma coisa que uma conta pessoal para manter contato com os colegas.

Um pouco antes do Natal, Bolsonaro bloqueou jornalistas do “The Intercept”, uma publicação on-line que não faz segredo dos seus sentimentos a respeito do novo presidente. Independentemente do que ele ache ou deixe de achar do jornal, não pode mais fazer isso. Um presidente não pode sonegar informação pública a quem quer que seja, muito menos a jornalistas. Também não pode tapar os ouvidos a vozes dissonantes — que é, essencialmente, o que um bloqueio permite.

O presidente de um país é o presidente de todos os seus habitantes. Se o meio de comunicação do presidente com o povo é o Twitter, ele — ou quem quer que atualize a sua conta — tem de estar disposto a se comunicar com todos e aceitar os comentários de todos.

Essa questão já foi resolvida nos Estados Unidos, onde uma juíza federal determinou que o acesso público à conta de Donald Trump está protegido pela Primeira Emenda da Constituição, aquela que trata da liberdade de expressão. Bloquear este acesso seria, portanto, equivalente a um ato de censura.

Lá como cá, um presidente não é um cidadão como outro qualquer. Se quiser ter a liberdade de só se comunicar com quem quiser, deve ter uma conta pessoal onde se abstenha de anunciar nomeações de ministros ou decisões governamentais.

Dito isso, vai ser interessante ver como Bolsonaro vai se comportar no Twitter daqui para a frente. Lembrando que a palavra “interessante” tem vários — e interessantes — significados.


Cora Rónai: Tecnologia e ignorância, combinação fatal

O que deve ser combatido é a maneira como as redes são usadas e, sobretudo, as causas que levam ao seu mau uso, como a insegurança e a falta de educação

A matéria mais horripilante que li este fim de semana - em que, como de hábito, não faltaram notícias horripilantes - contava o linchamento de dois homens inocentes num povoado mexicano, depois que boatos espalhados via Facebook e WhatsApp os denunciaram como sequestradores de crianças. Ricardo Flores, de 21 anos, e seu tio Alberto, de 43, haviam ido à cidade para comprar material de construção, e morreram sem saber do que eram acusados.

"Parece que esses criminosos estão envolvidos com o tráfico de órgãos. Nos últimos dias, crianças de quatro, oito e 14 anos desapareceram e algumas foram encontradas mortas com sinais de que seus órgãos foram removidos" dizia, segundo a BBC, uma das mensagens compartilhadas.

Os dois foram agredidos com fúria, seus corpos encharcados em gasolina e incendiados. A foto da reportagem mostra uma multidão diante da fogueira. O que a distingue dos quadros e ilustrações que mostram multidões medievais diante do suplício de feiticeiras são os braços erguidos segurando smartphones e filmando as chamas.

Cenas parecidas aconteceram na Índia diversas vezes este ano, através de incitações semelhantes: crianças sequestradas e mortas, seus órgãos removidos. Foram tantos casos de linchamento que o WhatsApp teve que restringir o número de grupos para os quais mensagens podem ser compartilhadas no país.

É fácil atribuir a culpa pela violência à tecnologia, mas é preciso resistir a essa facilidade. Desde a eleição de Trump, as redes sociais vêm sendo sistematicamente demonizadas. São um bode expiatório conveniente para tudo o que seres pensantes entendem estar errado com a humanidade, de escolhas políticas incompreensíveis a explosões de violência gratuitas.

É verdade que nunca, em momento algum, pessoas mal equipadas intelectualmente tiveram acesso a ferramentas tão poderosas de comunicação; mas essas ferramentas são menos culpadas pelos acontecimentos do que a ignorância dos seus usuários. Propor a sua censura ou a sua pura e simples proibição é bem mais simples do que encarar a realidade -- ou as reais raízes da violência.

Para governos ausentes e populistas, que nunca se preocuparam com a educação ou a segurança da população, é muito conveniente poder apontar para a tecnologia, essa força misteriosa e mal compreendida que, ainda por cima, está nas mãos de meia dúzia de capitalistas bastante vilanizáveis.

Na verdade, estamos diante de um problema para lá de complexo. A beleza do WhatsApp é dar a pessoas comuns, como eu, você e, sim, até os linchadores mexicanos e indianos, uma forma de comunicação rápida, barata, eficiente e segura, com um nível de criptografia imbatível.

Abrir essa criptografia pode ajudar a polícia a solucionar alguns crimes, mas ao custo de tirar de milhões de pessoas em situação vulnerável a possibilidade de manter as suas comunicações em sigilo total. O estrago que um governo mal intencionado pode fazer tendo acesso irrestrito às mensagens da população é incalculável.

O que deve ser combatido não são as redes, mas a forma como são usadas -- e, sobretudo, as causas que levam ao seu mau uso, como a insegurança e a falta de educação. Não é à toa que episódios horrendos como os recentes linchamentos aconteceram em regiões de baixíssimo nível educacional, onde a população desistiu, há tempos, de confiar na polícia.

 


Cora Rónai: A voz do povo é a da internet

Resultados do 1º turno mostram que políticos e partidos tradicionais terão que se reinventar

Pouco antes do começo do horário eleitoral, escrevi que, para além da óbvia disputa partidária, estávamos diante de um outro embate da maior importância: o da mídia tradicional contra a internet. Hoje não sei se "embate" é a palavra certa, porque não houve propriamente uma disputa - estamos falando, na verdade, de uma mudança de paradigma irreversível, de uma nova etapa na história da comunicação.

Diante dos resultados de domingo, resta pouca dúvida de que, hoje, a internet é a maior ferramenta eleitoral. Geraldo Alckmin, que tinha um latifúndio de espaço em rádio e TV, e uma das maiores máquinas eleitorais do país, não conseguiu 5% dos votos, ao passo que Jair Bolsonaro, com espaço minúsculo nas mídias tradicionais, quase leva a presidência de primeira, surfando nas redes sociais.

João Amoêdo, desconhecido do público, ausente dos debates, dono de míseros segundos de propaganda eleitoral, conseguiu ultrapassar nomes populares como Marina e Álvaro Dias na reta final, além de Henrique Meirelles, que só perdia em tempo de mídias tradicionais para Alckmin e Haddad.O fenômeno se repetiu, em maior ou menor grau, nas corridas para governador, senador, deputados. A maior surpresa aconteceu no Rio, onde um Wilson Witzel, ignorado pelas pesquisas, mas fortíssimo nos grupos de WhatsApp, foi vitorioso para o segundo turno.

Vai ser interessante observar os desdobramentos desses resultados. O grande motor das coligações espúrias, o tempo de televisão para a campanha, deixa de existir. Os partidos e políticos tradicionais vão ter que se reinventar, e começar a frequentar a internet, se quiserem se comunicar com o eleitor e se manter relevantes.

Com o fim da era da política em televisão e rádio chega ao fim também a era dos marqueteiros bilionários. Eles dão lugar ao pessoal que entende de redes sociais, que almoça e janta dados e se comunica por memes, e ao próprio eleitor, que nunca teve ferramentas tão poderosas ao seu alcance.Facebook e WhatsApp foram os canais preponderantes nessas eleições.

Há muito barulho sendo feito na mídia por conta de fake news mas, pessoalmente, continuo não acreditando que tenham a imensa importância que lhes é atribuída. Elas apenas reforçam o que as pessoas querem ouvir e, no fundo, não têm tanta diferença dos discursos e das promessas dos candidatos, fakes em sua essência desde que o atual sistema político foi implantado.

O que foi a apresentação de Dilma Rousseff ao eleitorado como uma gerente de inquestionável competência se não uma fake news descomunal? A diferença é que, para vender essa ideia, foram gastos R$ 1,4 bilhão, e a embalagem do produto foi feita de acordo com os cânones do marketing convencional, com seu viés de propaganda de margarina.

Dinheiro e poder pré-estabelecido deixam de ser determinantes na campanha, como prova a fragmentação inédita da Câmara. O eleitor tem uma força individual que nunca teve: ele pode influenciar parentes e amigos muito além da mesa de jantar ou dos encontros no botequim da esquina. Estamos diante de um fenômeno desconhecido, mas profundamente democrático.O risco é descobrir que a voz do povo não é a voz de Deus - ou que as intenções de Deus não são exatamente aquelas que esperávamos.


Cora Rónai: Twitter e eleições, o caso das arrobas vendidas

Piauí entra nos trending topics com posts pagos

Foi um fim de semana animado no Twitter: de um momento para o outro, o Piauí entrou nos trending topics e a casa caiu. "A casa" é exagero; na verdade, um puxadinho do PT, localizado em duas agências publicitárias de Belo Horizonte, a BeConnected e a LaJoy. Gente maldosa desconfiaria de uma empresa chamada LaJoy que não estivesse no mercado de serviços eróticos, mas uma turma enorme de "influenciadores digitais" achou tudo lindo, e tampouco viu problema em fazer posts a favor de candidatos do PT ganhando um dinheirinho por fora.

Um total de zero pessoas surpreendeu-se com isso. Posts pagos não são raros na internet, o PT trabalha há tempos com MAVs (de militância em ambientes virtuais) e com blogueiros bem remunerados, mas acontece que estamos em período eleitoral, e fazer propaganda eleitoral sem deixar claro que é propaganda é ilegal -- até porque os resultados de uma eleição podem ser definidos pelo boca a boca, pelas pessoas comuns que declaram, em tese espontaneamente, os seus votos.

A arroba contratada @pppholanda provavelmente não sabia disso quando denunciou o esquema no sábado à noite. Achou, acertadamente, que era uma imoralidade influenciar as eleições de um estado que não conhece, e jogou o trombone no ventilador. Agora, como os demais implicados, está sujeita às penas da lei. Também está apanhando de todos os lados, foi ameaçada por um influencerfamoso e fechou a conta do Twitter.

No seu rastro, uma quantidade de outras contas fechadas, teorias conspiratórias e uma longa discussão ética: o que é pior, aceitar um esquema de posts fraudulentos e seguir com a farsa (e com os cachês) ou denunciá-lo? A lei da omertà é dura com delatores. A ala "progressista" do Twitter, sem críticas para o ato ilegal, pôs-se em brios, contudo, com a delação. O futuro é claro: as arrobas que aceitaram dinheiro serão perdoadas por seus pares, mas a arroba delatora jamais o será. Para essa turma, denunciar um crime é pior do que cometê-lo.

As teorias conspiratórias demonstram a mesma falha moral. A culpa não seria dos pobres tuiteiros ingênuos, mas de quem os contratou; ver-se-ia aí, claramente, uma arapuca criada com o único e exclusivo intuito de desmoralizar "a esquerda". O fato de "a esquerda" ter aceitado tuitar por dinheiro não desmereceria as arrobas.

"Queria que metade das pessoas que estão me xingando e me acusando soubesse da minha vida e de quantas contas tenho para pagar", queixou-se uma arroba paga.

"Tirou as palavras da minha boca!", exclamou outra. "Agora esse pessoal direitista vai fazer a festa às custas de todo mundo que entrou na ação."

As arrobas desmioladas estão diante de um grave dilema: o que é pior, passar por idiota ingênuo ou por canalha safado?

A zoeira continua, e não deve se acalmar tão cedo, até porque é muito divertido ver pessoas que proclamam ter o monopólio da virtude mostrando-se tão pouco virtuosas. A direita usa táticas semelhantes, mas pelo menos nunca se vendeu como o sal da terra.

O furdunço foi resumido com perfeição -- no próprio Twitter, aliás -- pelo meu colega e amigo Márvio dos Anjos:

"O Twitter comprovou em larga escala que não é preciso ser anônimo ou robô para ser fake."

No mais, continua valendo o conselho de sempre para quem frequenta redes sociais: desconfie de tudo e de todos, sempre.

 


Cora Rónai: Na rede 5G, será possível baixar 90 músicas em 1 segundo ou um filme em 2 minutos

Difícil é dizer quando isso vai chegar ao Brasil

Mal o avião decolou, liguei o computador e tentei me conectar. Tinha coluna para escrever, precisava do Google. Virou vício - não sei mais escrever sem o Google, mesmo quando não uso o Google. Nada. Tentei de novo, e mais uma vez, e outra. Finalmente a internet deu sinal de vida, lenta como uma centopeia com problemas nas articulações; a bem dizer, imprestável. Comecei a sentir aquela irritação clássica que nos afeta diante de uma conexão ruim, mas o meu cérebro corrigiu a rota a tempo:

- Cora Rónai, você está mesmo reclamando da conexão de internet a 11 mil metros de altitude? É sério isso? Você está confortavelmente sentada dentro do Grande Pássaro de Prata que os seus semelhantes inventaram e desenvolveram, viajando a uma velocidade jamais sonhada pelos seus antepassados, e ainda tem a audácia de reclamar que a conexão wi-fi não está boa?

Uma vez ouvi o comediante Louis C. K. dizer algo parecido, e ainda que tenha esquecido as palavras exatas, me lembro bem da essência do que ele dizia, porque era um resumo perfeito dos meus pensamentos. Nós vivemos cercados por milagres, mas temos a tendência de ignorá-los quando modificam a paisagem e nos acostumamos com eles.

Agora escrevo de um outro avião -- uma máquina que voa! -- usando um computador peso pluma que é muitas vezes mais poderoso do que os computadores que, ainda outro dia, ocupavam salas inteiras. Como se isso não bastasse, a internet funciona impecavelmente.

Entre um voo e outro, fui ver o lançamento do primeiro smartphone que poderá acessar a primeira rede 5G, que a Verizon deve pôr no ar em algumas cidades dos Estados Unidos em abril do ano que vem. O celular é o Motorola Moto Z 3, um aparelho 4G bastante parecido com o seu antecessor, mas capaz de se conectar ao 5G através de um novo módulo da família Z equipado com quatro antenas e dois modems.

Há anos falamos em 5G, mas agora, enfim, a tecnologia começa a tomar corpo. Como o 4G antes dela – e antes ainda o 3G, e as gerações anteriores -- ela também vai mudar radicalmente os nossos hábitos. A internet das coisas dará um salto, e os smartphones ficarão muito, muito mais rápidos – o que possibilitará o desenvolvimento de utilidades e de aplicativos que ainda nem imaginamos. Estamos prestes a presenciar o nascimento de um novo ecossistema.

Numa rede 5G, será possível baixar o equivalente a 90 músicas em 1 segundo, ou um filme de duas horas em 2 minutos; hoje, com uma boa conexão, levamos um pouco mais de 20 minutos. Quer dizer: daqui a cinco ou seis anos ficaremos muito irritados quando não conseguirmos fazer o download da última temporada do nosso seriado favorito enquanto tomamos um café.

Quer dizer: vamos precisar de muuuuuito espaço de armazenagem. Hoje os celulares de ponta têm espaço para cartões de 2TB (que ainda não existem). É possível que isso em breve nos pareça ridiculamente pouco.

Quando essas maravilhas vêm para o Brasil? Difícil responder. O 5G precisa de toda uma nova infraestrutura, e de investimentos pesados. Um dia chega.

 


Cora Rónai: Abre o olho, Facebook

Empresa atravessa uma crise séria de imagem. É pouco transparente e a impressão é de que se preocupa mais com lucros do que com os usuários

E o Facebook foi para as manchetes mais uma vez, na semana passada. Causou polêmica, revolta e alguma comemoração no Brasil ao tirar do ar uma rede de quase 200 páginas ligadas de uma ou outra forma ao MBL e, logo depois, deixou arrasados os seus acionistas, e perplexo o distinto público, ao perder U$ 120 bilhões na Bolsa de NY, o equivalente a uma Nike ou a todo o mercado de ações da Argentina. Uma coisa não teve nada a ver com a outra -- mas uma coisa tem tudo a ver com a outra.

O Facebook está atravessando uma crise séria de imagem, e não é de hoje. É uma empresa pouco transparente e pouco simpática, que passa a impressão de se preocupar mais com os lucros do que com os usuários. Mark Zuckerberg é um gênio, mas não tem o carisma de Steve Jobs, nem a sua capacidade de convencer a humanidade de que é o rei da cocada preta; sua juventude e sua autoconfiança trabalham contra ele quando contrapostas à sua fortuna e ao seu poder.

Para o pessoal de esquerda, o Facebook é a imagem do capitalismo, e esse pessoal não está de todo errado; para o pessoal da direita, o Facebook é uma empresa com um forte viés de esquerda, e esse pessoal também não está de todo errado.

Parar piorar, o escândalo da Cambridge Analytica ainda não foi esquecido.

Os usuários estão cansados do Facebook, que frequentam apenas por falta de opção. Os que têm maior número de seguidores sentem-se, além de tudo, explorados -- eles produzem conteúdo, e só o Facebook lucra com isso. No Google, o sistema de anúncios pinga alguma coisa nas contas dos usuários mais bem sucedidos, e youtubers de sucesso ganham um dinheiro sério. Ser facebooker de sucesso, porém, é só massagem no ego -- e há um momento em que até massagem no ego cansa se não se transforma em algo concreto.

O MP de Goiás cobra explicações sobre a derrubada das páginas. É uma bobagem, mas uma bobagem compreensível. O Facebook é uma empresa privada, que pode tirar do ar o que bem entender; mas o Facebook é também a maior rede social do mundo, a grande praça pública dos nossos dias, e como tal é bom que preste esclarecimentos à comunidade.

Derrubar páginas que não estão de acordo com o regulamento não é censura, mas fazer isso apenas com as que estão numa ponta do espectro político pode passar essa impressão. À mulher de Cesar não basta ser honesta; é preciso parecer honesta.

O Facebook se pouparia muita chateação se derrubasse ao mesmo tempo páginas à esquerda e à direita. Material não falta: os dois lados desinformam, manipulam, produzem fake news e têm fake personas em proporções semelhantes. Melhor empatar o jogo antes de promover a ação.

Não é possível que não haja uma única pessoa dentro da empresa para antever o prejuízo moral que uma atitude tão pouco transparente e tão aparentemente tendenciosa pode causar. Não dá para contrariar tanta gente, o tempo todo, sem sofrer as consequências.

O ciberespaço está cheio de redes mortas que, um dia, foram imprescindíveis para os seus usuários.

 


Cora Rónai: Intolerância

Ler o que os inquisidores escreveram para Fabiana Cozza ofende até a quem não tem nada a ver com a história

Quando comecei a trabalhar em jornal, época em que os dinossauros caminhavam felizes sobre a Terra e vocês ainda não eram nascidos, havia censura. Havia departamentos de censura, um conselho superior de censura e um monte de censores para povoá-los e brandir a tesoura: cidadãos que acordavam de manhã cedo, tomavam banho, tomavam café, escovavam os dentes e iam para o escritório para censurar o trabalho alheio. Ganhavam bem para fazer o que o povo faz hoje de graça na internet. Eu não tenho nenhuma saudade daqueles tempos mas, pensando bem, acho que preferia aqueles censores estatutários às hordas linchadoras do Facebook.

Aquela censura era escancarada e despertava o melhor em todos nós, que a desafiávamos escrevendo nas entrelinhas, buscando figuras de retórica e modos de dizer as coisas sem dizer. Enfrentá-la era um desafio cotidiano, uma adrenalina constante. Descobrir as pistas espalhadas pelos jornais em forma de receitas de bolo e previsões do tempo era emocionante, romances e filmes censurados ganhavam o tempero apimentado da proibição.

Havia heroísmo em desafiar a censura, não em exercê-la.

Dona Solange, aquela, que chegou a inspirar música do Leo Jaime, mudou de sobrenome e foi viver no interior, zero orgulho da sua profissão. Os vizinhos, que a consideravam uma senhora reservada porém gentil, jamais desconfiaram do que ela fazia antes de se aposentar.

Os censores de redes sociais, ao contrário, se acham os reis — e rainhas — da cocada preta. Estão convencidxs da grandeza da sua missão, certxs de que lincham por motivos nobres. Seu ódio é puro e benfazejo, e suas vítimas deveriam se sentir gratas pelas lições. Só falam no imperativo:

— Calaboca!

— Leia!

— Estude!

— Aprenda!

— Silencie e respeite!

— Peça desculpas!

— Deixe de se fazer de vítima!

Palavras não tiram pedaço — mas tiram. O corpo sai inteiro de um ataque, mas a alma sai em frangalhos. E aí entra em cena algo muito pior do que a dona Solange: a autocensura. Nos tempos da censura, lutava-se para que opiniões e ideias sobrevivessem; hoje elas são abortadas antes de nascer. Não há glória em desafiar militantes raivosos, não há heroísmo em enfrentar ofensas disparadas por trás da tela.

A internet é um vasto território de absurdos sem resposta e de pensamentos silenciados, porque qualquer pessoa menos beligerante — quero crer a maioria de nós — prefere ficar calada a externar uma opinião que pode eventualmente ser mal interpretada — e será: na internet tudo o que pode (e tudo o que não pode) ser mal interpretado será sempre mal interpretado. Para que despertar as bestas do apocalipse? Melhor levantar e ir tomar um café, dar um telefonema, regar as plantas, passar batido.

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Um dos documentos importantes desse Museu da Intolerância é o texto em que Fabiana Cozza renuncia ao seu papel no musical sobre Dona Ivone Lara, e que acabou dando panos para as mangas até aqui no jornal. Ela foi massacrada por ativistas de movimentos negros por não ser suficientemente escura para o papel, e abre o seu desabafo, dirigido “aos irmãos”, com as suas credenciais genéticas: “Mãe: Maria Ines Cozza dos Santos, branca, Pai: Oswaldo dos Santos, negro, Cor (na certidão de nascimento): parda”.

Fabiana escreveu com sentimento e expôs as suas feridas, dilacerada pelo linchamento sofrido ao comemorar, dias antes, a felicidade com o convite para a produção:

“Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro.”

Ler o que escreveram os inquisidores na sua página é de assustar mesmo, fere e ofende até a quem não tem nada a ver com a história. Não consigo imaginar o quanto aquelas palavras não magoaram Fabiana. Mas renunciar ao papel não pôs fim à violência — agora ela está sendo acusada de ter denunciado a agressividade dos agressores.

“Irmã vírgula, não somos irmãos. E nós pretos vírgula, pq vc não é preta. E pare de colocar os negros como raivosos por exigir que o certo fosse feito. Tinha mais q sair mesmo.”

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Fiquei horrorizada em ver tanta gente se sentindo autorizada a dizer quem o outro é, como o outro é, como o outro pode ou não se sentir. A Arte, enquanto isso, escondida num canto, cobrindo a cabeça de cinzas. Como se Dona Ivone Lara fosse só uma cor, como se o delicado trabalho de representá-la em toda a sua grandeza não envolvesse tanto mais. Fabiana Cozza conheceu Dona Ivone, cantou com ela, foi escolhida pela família para o papel. É negra, mas não é Pantone 321-2 C. Todos a ela.

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Sou branca (Pantone 58-6 C) e desqualificada de saída para entrar nessa discussão.

Mas aí é que está: todos deveríamos poder discutir tudo. Racismo não pode ser discutido só entre pretos ou só entre brancos, como feminismo não pode ser discutido só por mulheres. Ou lutamos pela inclusão de todos, e por todos os lados, ou vamos nos afastar cada vez mais, fechados nas nossas bolhas, ouvidos tapados para o outro, fervendo cada qual na sua ilha de ódio.

 


Cora Rónai: John Perry Barlow

Defensor da liberdade de expressão, ele tinha um pé na contracultura e outro na tecnologia. Foi um homem múltiplo

Para nós, hoje, é natural imaginar a internet como um vasto espaço de liberdade. A censura da rede é imediatamente reconhecida, e vista como uma aberração, a marca inequívoca de um governo autoritário — ou, na melhor das hipóteses, como um grave atentado à liberdade de expressão. Nos países democráticos, qualquer interferência legal, por menor que seja, é discutida exaustivamente. Temos consciência de que, para o bem ou para o mal, a rede deve ser livre.

MAS ESSA CONSCIÊNCIA
não nasceu do nada. Nós a devemos a alguns pioneiros que lutaram com unhas e dentes — e magníficos advogados — para que assim fosse. A população em geral ainda não tinha ideia do que era a internet, e eles já estavam atentos aos perigos que a ameaçavam dos gabinetes do poder, indo à Justiça, estabelecendo jurisprudência, garantindo que todos entendessem bem o que estava em jogo.

Na semana passada perdemos um desses campeões. John Perry Barlow, fundador da Electronic Frontier Foundation (junto com Mitch Kapor e John Gilmore), defensor intransigente da liberdade de expressão, da liberdade individual e da liberdade de imprensa, morreu durante o sono, aos 70 anos. A humanidade não sabe quanto deve a ele. Encontrei Barlow em pessoa há mais de 20 anos, quando ele esteve no Rio pela primeira vez, mas já nos conhecíamos virtualmente da Well, uma comunidade on-line de São Francisco. Ele tinha ido ao Mali um pouco antes, e estava feliz com os resultados da viagem. Num tempo em que jornalistas do mundo inteiro ainda escreviam um parênteses sempre que mencionavam a internet (“rede mundial de computadores”), ele tinha feito questão de instalar uma rede lá, só para poder dizer nas suas palestras que já existia internet até em Timbuktu.

Nós nos encontramos várias vezes depois disso, ou nos Estados Unidos ou, mais frequentemente, aqui no Brasil, que passou a frequentar com regularidade, sobretudo quando Gilberto Gil — que ele adorava — foi ministro da Cultura.

Barlow não parava, vivia em movimento — seus e-mails chegavam dos pontos mais remotos do planeta, e apontavam sempre para as suas próximas paradas. Nunca encontrei ninguém com maior capacidade de fazer amigos. Era um networker nato, e parecia conhecer todas as pessoas do mundo — ou, pelo menos, as mais interessantes. Nos tempos da internet a vapor, fazia circulares sobre o que tinha visto, o que pensava e o que tinha chamado a sua atenção, e mandava para toda a sua extensa lista de contatos. Eram textos enormes e memoráveis. Cheguei a publicar alguns aqui no GLOBO, no caderno de informática.

Com um pé na contracultura e outro na tecnologia, foi um homem múltiplo, que viveu incontáveis vidas numa só. Criou gado no Wyoming numa cidade minha xará chamada Cora (é um dos três cowboys que aparecem de costas no clássico anúncio dos cigarros Marlboro), escreveu letras para o Grateful Dead, ajudou a popularizar a palavra “ciberespaço” para descrever o mundo das máquinas conectadas.

Andava com a saúde muito debilitada. Ao longo do último ano, sua rotina era entrar e sair de hospitais, mas ainda assim dava a impressão de que não iria embora nunca, um ser eterno na sua sabedoria e no seu entusiasmo com a vida.

Quem sabe? Talvez as notícias da sua morte tenham sido muito exageradas. Talvez, como comentou alguém na sua página no Facebook, ele tenha sido apenas abduzido por ETs, e volte qualquer hora dessas. Tomara. O mundo precisa de mais gente como ele.

 


Cora Rónai: Pagando para ver

O Facebook, que começou como plataforma de engajamento, cada vez mais se transforma num canal pago

O ano de 2012 foi decisivo para muitas empresas que apostaram no Facebook como plataforma de comunicação: uma mudança no algoritmo reduziu drasticamente o alcance das suas páginas, que passou para apenas 16% da comunidade de fãs. Outras mudanças ocorreram no ano seguinte. Em 2014, de acordo com um estudo da Social@Ogilvy, o alcance orgânico ficou numa média de 6%, sendo que nas páginas mais movimentadas, com mais de 500 mil curtidas, ele caiu para pífios 2%. “Alcance orgânico” é uma forma elegante de dizer quanta gente pode ser alcançada gratuitamente por um post. Em outras palavras, uma publicação feita numa fanpage com meio milhão de seguidores não será vista por mais do que dez mil pessoas, e olhe lá.

Em abril, Kurt Gessler, editor de mídia digital do “Chicago Tribune”, observou, num artigo postado na plataforma Medium, que nunca os posts do jornal tinham chegado a tão poucos leitores. Àquela altura, o “Tribune” tinha cerca de 500 mil fãs, dos quais algo entre 25 mil e 50 mil viam as suas publicações: em dezembro de 2016, apenas oito dos seus posts haviam tido menos de 10 mil visualizações. Em janeiro, porém, esse número saltou para 80. Em fevereiro, 159. E em março, nada menos do que 242 posts entraram na conta — ainda que a quantidade de seguidores do jornal no Facebook estivesse crescendo.

A moral da história parece ser simples: quer mais alcance? Pague por ele.

O Facebook, é claro, nega isso, e atribui a queda do alcance orgânico à 1) existência de mais conteúdo, e 2) uma otimização do feed de notícias, que mostraria aos usuários apenas o que é considerado mais relevante para eles. Os argumentos, no entanto, não sensibilizam especialistas em comunicação e marketing, que continuam discutindo o assunto, e já trabalham com a hipótese de alcance orgânico zero.

O pior é que essa estagnação está indo além das das fanpages, e começa a chegar aos perfis pessoais. Notei isso pessoalmente há dois ou três meses. Minha conta, que recebia cerca de mil novos seguidores por mês, consistentemente, empacou, embora o conteúdo continue o mesmo. Outros amigos, que também têm páginas muito movimentadas, notaram a mesma coisa. Nossas páginas não têm sido mostradas para além do seu núcleo básico e, frequentemente, nem isso, já que gente que sempre via os nossos posts deixou de ver, e amigos têm perguntado por que deixamos de postar, apesar das várias publicações diárias. Fiz um post sobre isso e a reação foi enorme. Todo mundo tem a mesma percepção, seja em relação aos seus próprios perfis, seja em relação a perfis seguidos.

Ou seja, a rede, que começou como uma extraordinária plataforma de criação de comunidades e de engajamento, cada vez mais se transforma num canal pago, caminho seguro para deixar de ter qualquer relevância.

O mais irônico é que, na sua página para a imprensa, o Facebook começa a retrospectiva do ano afirmando que, em 2017, anunciou sua nova missão de “dar às pessoas o poder de criar comunidades e aproximar o mundo”.

Me engana que eu gosto.